quinta-feira, 1 de junho de 2017

Manifesto da 18ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa

Autodeterminação do género, autodeterminação do corpo para todas as pessoas trans
Manifesto da Marcha do Orgulho LGBT - Lisboa 2017

Estamos nas ruas pela 18ª vez, na que é a maior e mais participada Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.

Estamos aqui porque queremos mostrar toda a nossa diversidade. Somos pessoas trans, intersexo, lésbicas, bissexuais, gays, assexuais, pessoas de todas as origens étnicas e nacionais, requerentes de asilo, pessoas com diversidade funcional, com deficiências, pessoas que exercem trabalho sexual, pessoas de várias religiões e crenças, pessoas com maior ou menor segurança económica, com vidas mais ou menos precárias, pessoas que têm diferentes modelos relacionais e familiares, pessoas idosas e jovens, pessoas arromânticas, pessoas que estão em relações poliamorosas e não-monogâmicas consensuais. Somos pessoas com Direitos inalienáveis. 

Estamos aqui porque, e independentemente da nossa orientação sexual, identidade ou expressão de género ou orientação relacional, somos pessoas que querem contrariar e que recusam um sistema de regras e de papéis rígidos impostos pela nossa sociedade, um sistema binário e hetero-mono-normativo que nos limita e nos reprime. Celebramos as nossas diferenças e a interseção das nossas várias identidades.

Exigimos a inclusão da identidade e a expressão de género no artigo 13.º da Constituição. 

Estamos aqui por muitos motivos – mas este ano especialmente porque exigimos a despatologização das identidades trans. 45 anos depois da despatologização da homossexualidade urge despatologizar as identidade trans. Estamos aqui porque exigimos a autonomia de todas as pessoas na definição de si próprias, em todas as áreas da vida em sociedade. Não podemos permitir que a autonomia das pessoas trans, na livre vivência dos seus corpos, continue restringida pelo controlo médico. Não esquecemos os problemas com as cirurgias no Serviço Nacional de Saúde – que têm sido objeto de notícias – e exigimos cuidados (de saúde mental, hormonais, cirúrgicos, e outros) éticos, de qualidade, atempados, e gratuitos. Estamos aqui porque exigimos que os cuidados de saúde no nosso país respeitem a diversidade das nossas identidades.

Estamos aqui para que as vozes trans sejam ouvidas; para que os discursos sobre estas pessoas deixem de estar sob a tutela de supostxs especialistas. As pessoas trans sabem quem são e de que precisam. Chega de paternalismos!

Continuaremos a vir para a rua enquanto houver mutilações à nascença feitas a crianças intersexo, enquanto as pessoas intersexo tiverem as suas variações do desenvolvimento sexual patologizadas e os seus corpos submetidos a "normalização" hormonal e mutilações sem consentimento informado. Nem mais uma criança mutilada! 

Continuaremos a vir para a rua enquanto a saúde continuar longe de ser para todas as pessoas, e enquanto o género continuar a pôr em causa o acesso à nossa saúde sexual e reprodutiva. 

Nada mudou desde o ano passado: o preconceito continua a estar na base dos critérios estigmatizantes, discriminatórios e errados que insistem em querer vedar a doação de sangue a todos os “homens que têm sexo com homens” e em impedir as pessoas de recorrer com confiança e com segurança a profissionais do SNS.

As estratégias integradas de prevenção do VIH excluem ainda o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) e são ainda muito poucas as estratégias governativas de combate à discriminação e ao estigma associados ao VIH.

Estamos aqui porque dizemos não à discriminação, ao preconceito e ao bullying nas escolas e espaços afins, incluindo os espaços de educação não-formal.

Estamos aqui porque queremos um quadro legal que reconheça a gravidade dos crimes de que somos vítimas, que reconheça as motivações discriminatórias de quem os pratica, e que conduza a práticas de investigação e registo adequadas e imparciais. Queremos um sistema judicial que nos veja e nos proteja, queremos profissionais de confiança para que possamos viver em plenitude e segurança.

Estamos aqui porque queremos igualdade e proteção não só em Portugal mas em todo o lado e para todas as pessoas. Queremos viver num país que respeita as suas obrigações internacionais de Direitos Humanos e que as relembra e exige a outros países. Queremos a proteção de todas as pessoas em todos os lugares. Não podemos ficar inertes e em silêncio com os assassinatos constantes de mulheres trans no Brasil, com as perseguições milicianas a pessoas com sexualidades e expressões de género não normativas na Rússia e nos seus protetorados, com perseguições, violações "corretivas" de mulheres lésbicas e bissexuais na África do Sul, raptos e torturas de tantxs de nós no Uganda, com a ameaça de penas de morte e de prisão em tantos países.

De Trump a Putin, do Zimbabué à Arábia Saudita, das igrejas evangélicas brasileiras ao Daesh, das extremas-direitas europeias a Israel, as pessoas LGBT são hoje sistematicamente instrumentalizadas para efeito de propaganda, tanto quando são tornadas bodes expiatórios, ou quando discursos pretensamente contra a homofobia são usados para legitimar o ódio contra outras comunidades - como as pessoas migrantes, refugiadas, muçulmanas - ou ainda quando a alegada defesa dos direitos LGBT serve como cortina de fumo para ocultar outros atentados sistemáticos contra os direitos humanos.

Gritamos bem alto: a solidariedade (e o ativismo) com todas as pessoas e grupos perseguidos, a intransigência na defesa da universalidade dos Direitos Humanos, são hoje, mais que nunca, os instrumentos que nos permitirão defender os nossos direitos e as nossas vidas!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Marca na agenda!


A 18ª Marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Trans de Lisboa terá lugar no dia 17 de junho!
Marquem nas agendas e juntem-se a nós!


Fotografia de Luísa Cativo

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Manifesto da 17ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa



Celebrar as diferenças, transcender o género!
Manifesto da Marcha do Orgulho LGBT - Lisboa 2016


Saímos à rua em Lisboa pela 17ª vez para marchar com cada vez mais orgulho em transcender o género. As pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans, conhecem bem a violência desse sistema de regras e de papéis rígidos, um sistema de binarismos, proibições e punições que nos limita e que nos quer dizer quem somos, o que somos, como nos devemos expressar ou com quem e como  nos devemos relacionar. Saímos à rua para mostrar que recusamos a repressão da diversidade de género e que vamos continuar a transcender a opressiva norma binária porque celebramos todas as nossas diferenças!

Ao assinalarmos uma década sobre o assassinato de Gisberta, no Porto, saímos à rua também em Lisboa para recordar que a violência é usada para silenciar as nossas diferenças. Saímos à rua porque é urgente dar prioridade aos direitos das pessoas trans.

TRANScender o género é despatologizar as identidades trans e privilegiar a autonomia de todas as pessoas trans na definição de si próprias, quer na lei, quer na saúde, quer na sociedade. É afirmar a necessidade de incluir a identidade e a expressão de género no artigo 13º da Constituição. E é exigir os cuidados de saúde competentes que respeitem essa autonomia, incluindo finalmente cirurgias com garantias de qualidade no SNS.

Mais: transcender o género é recusar as mutilações à nascença feitas a crianças intersexo, uma aberrante violação de Direitos Humanos perpetrada em nome da normalização do sexo-género.

Saímos à rua para uma vez mais chamar a atenção para a saúde, que ainda está longe de ser para todas as pessoas. Porque o género continua a pôr em causa o acesso à saúde sexual e reprodutiva.Porque o preconceito sempre assente no género está também na base dos critérios estigmatizantes, discriminatórios e errados que continuam a vedar a doação de sangue a todos os “homens que têm sexo com homens”. Porque a discriminação das pessoas LGBT no acesso à saúde continua a impedi-las de recorrerem com segurança a profissionais de um serviço público tão fundamental. Porque continuamos a precisar de estratégias integradas de prevenção do VIH que incluam o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), sempre a par de estratégias de combate à discriminação e ao estigma associados ao VIH.

Saímos à rua para recusar todas as violências que os papéis de género continuam a impor: os crimes de ódio que são cometidos contra nós e que continuam a acontecer em silêncio, o bullying nas escolas mas também em casa ou no local de trabalho, os suicídios de quem sofre por se afirmar ou por não se poder afirmar. Acabar com toda a violência da discriminação só é possível transformando a sociedade, para o que são fundamentais a intervenção política, a educação sexual, a educação para a cidadania, a sensibilização e formação para a diversidade alargadas.

Saímos à rua para mostrar que somos pessoas com uma enorme diversidade: pessoas trans, pessoas de todas as origens étnicas e nacionais, requerentes de asilo, pessoas com necessidade especiais, pessoas que exercem trabalho sexual, pessoas de várias religiões, pessoas que têm diferentes modelos relacionais e familiares, pessoas idosas e jovens, pessoas arromânticas, assexuais, bissexuais, lésbicas, pessoas que estão em relações poliamorosas e não-monogâmicas consensuais, mas sempre pessoas com Direitos Humanos inalienáveis. Saímos à rua para celebrar as diferenças e dizer que cada pessoa tem que poder ser reconhecida na interseção das suas várias identidades – e  ter direito a todos os direitos.

Saímos à rua para celebrar vitórias legais que já alcançámos e afirmar as que estão por conseguir: nossa luta está só a começar.

Saímos à rua em Lisboa, pela 17ª vez, para dizermos em conjunto que  continuaremos a lutar, com cada vez mais força, que é a força de todas as nossas diferenças.

Saímos à rua para marcharmos com orgulho em CELEBRAR AS DIFERENÇAS e TRANSCENDER O GÉNERO! 

Subscrevem:  

Academia Cidadã
actiBIstas - coletivo pela visibilidade bissexual
AMPLOS
APF - Associação para o Planeamento da Família
Bichas Cobardes
Conselho Nacional da Juventude
GAT
Grupo Transexual Portugal
ILGA Portugal
Lóbula
Marcha Mundial das Mulheres - Portugal
não te prives
O Clítoris da Razão
Opus Gay
Panteras Rosa
PolyPortugal
Precários Inflexíveis
rede ex aequo
Rota Jovem
SOS Racismo
UMAR

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Queres criar o cartaz da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa 2016?


À atenção de artist@s, design@rs, gráfic@s, desenhador@s,amador@s, profission@is, criativ@s, imaginativ@s, curios@s, militant@s, ativist@s, e todXs!



A organização da Marcha do Orgulho LGBT - Lisboa 2016 recebe até 20 de março propostas para o CARTAZ da próxima edição. Com o lema "Celebrar as diferenças, TRANScender o género" pretendemos continuar a usar o cartaz como meio fundamental da comunicação e divulgação da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.

A COMPOSIÇÃO DEVE INCLUIR OS SEGUINTES ELEMENTOS:

- "17ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa";
- Data e hora de início: 18 de Junho de 2016 - 17h;
- Local de partida/início: "Jardim do Príncipe Real";
- Pedimos que as propostas reflitam o lema da manifestação “eu, tu, nós Celebrar as diferenças, Transcender o Género”
- Espaço na secção inferior para os logótipos das associações que constituem a Comissão Organizadora


REQUISITOS DO PRODUTO:

- Tamanho do cartaz: 700 x 500 mm;
- Resolução pretendida: 300 a 450 dpi [mín. e máx.];
- Formatos digitais aceites: JPG, TIF, EPS ou PDF;
- Composição gráfica livre, sob a condição de respeitarem o objetivo do cartaz, ou seja, a divulgação da marcha.

PROCESSO DE SELEÇÃO:
- O concurso encerrará no dia 20 Março 2016, às 23h59. Até essa data as propostas devem ser enviadas para o email: marchalgbt@gmail.com;
- Qualquer candidatx pode enviar um número ilimitado de propostas, desde sejam trabalhos originais e inéditos;
- Cada candidatx deve enviar a/s sua/s proposta/s, juntamente com o seu nome e contactos (email e telefone).
- Cada proposta será avaliada após a data de fecho do concurso pela comissão organizadora.

Após a seleção da proposta vencedora, será pedido ax designer que adapte o cartaz para elementos de divulgação acessórios mais simples: um banner adaptado à imagem de capa no Facebook e um folheto A5, que mantenham a mesma linha gráfica.

- A Comissão reserva-se o direito de propor alterações ao cartaz em conformidade com questões estéticas ou conceptuais que considere pertinentes.
- A MOL é composta por organizações sem fins lucrativos e todas as iniciativas de angariação de fundos servem para financiar a manifestação e os seus momentos de divulgação. Por esse motivo, haverá um prémio de carácter simbólico no valor de 100€ para x designer do cartaz escolhido. Será elaborada uma carta de recomendação, se solicitada, para aquelxs que desejem incluir este trabalho no seu portfólio.

- Qualquer dúvida ou questão relativa ao concurso deve ser enviada para o email marchalgbt@gmail.com

terça-feira, 26 de maio de 2015

Não me obriguem a vir para a rua gritar



Texto escrito há 10 anos, em 2005, por Eduarda Ferreira

“Não me obriguem a vir para a rua gritar”
A minha família e os meus amigos sabem que eu sou lésbica; ando de braço dado na rua com a minha namorada; damos beijos quando a ternura aperta; assumo-me como lésbica em programas de televisão; quando falo com alguém que não conheço não oculto ou disfarço o facto de ter uma relação amorosa com uma mulher e que esse é o meu núcleo familiar; participo nas marchas e grito bem alto “seja homem ou mulher eu amo quem quiser”, ...
Poderia dizer que não sou alvo de discriminação e que se tenho algum tratamento diferenciado até é pela positiva. Todos me tratam com uma delicadeza enorme e com uma atitude politicamente correcta quando, por exemplo, dou sangue e assumo a minha relação lésbica, ou quando eu e a minha namorada vamos para um hotel e assumimos que queremos um quarto com cama de casal, porque somos de facto um casal, estamos habituadas e gostamos de dormir juntas.
Tudo isto é muito bonito e maravilhoso, a quantos milhões de anos luz estamos dos tempos da clandestinidade, do proibido, do escondido. Deveria estar contente e não sentir necessidade absolutamente nenhuma de vir para a rua gritar, mas ... sinto e sinto-a com muita força e urgência.
Sinto essa necessidade e urgência, porque neste quadro tão positivo algo me perturba... Dizem-me, quando falo da excelente relação que sempre tive com os meus pais, sabendo eles da minha orientação sexual, que tive sorte em ter pais assim. Sorte? Sem dúvida sorte por serem pessoas extraordinárias que me ensinaram a amar a vida e a maravilhar-me com toda a beleza que ela tem, mas não de forma alguma sorte por eles me aceitarem. Só o facto de se dizer “aceitarem” encerra em si mesma a essência da discriminação, do ser diferente e não simplesmente diverso.
Uma coisa é sermos todos diversos e ricos nessa diversidade, outra é alguns serem considerados diferentes em relação a uma maioria, serem o desvio que se opõe à norma.
Não quero ser “aceite” e suportar o silêncio embaraçoso, mas supostamente simpático de pessoas amigas da família que calam questões sobre o facto de estar sozinha ou acompanhada, ignorando a minha vida em comum com a minha companheira.
Não quero a simpatia que também pode magoar! Quando uma amiga que não vejo há longa data me diz: podes vir visitar-me, eu sei como vives e estás à vontade para trazer a tua companheira. Este discurso pode parecer mais uma vez maravilhoso, mas não é! É como se dissessem: apesar da tua “diferença” não precisas de te esconder nem de te envergonhar. Mas a mim nunca me passou pela cabeça, nem pelo coração, envergonhar-me de gostar de alguém só porque é do mesmo sexo que eu.
Dói-me ver @s meus amig@s lésbicas e gays que se escondem de si próprios e dos outros; que vivem as suas vidas num jogo de faz de conta para que ninguém saiba ou desconfie da sua orientação sexual; que nunca, mas nunca em caso algum darão um beijo em público à pessoa que amam e que mesmo em casa só o fazem longe da janela; que convivem com os seus amigos e famílias, num clima de sorrisos e hipocrisias, esforçando-se por ocultar uma das partes mais importantes e significativas da sua vida, a relação amorosa com a pessoa que amam; que acham que se mostrarem ao mundo que amam alguém do mesmo sexo estão a “chocar” desnecessariamente os outros, não conseguindo ver a violência imensa que existe numa sociedade que faz sentir como errados e negativos sentimentos de afecto e amor, empurrando-os para a invisibilidade.
Por isso digo que me obrigam a vir para a rua gritar!
Obrigam-me as pessoas simpáticas que me “aceitam”;
Obrigam-me as amigas e amigos lésbicas e gays que se escondem dos outros e deles próprios;
Obriga-me o facto de muitas pessoas a partir do momento em que sabem qual é a minha orientação sexual passarem a considerar essa a característica mais importante que me define;
Obriga-me o orgulho de me sentir feliz e bem comigo apesar de ter crescido numa sociedade heteronormativa, em que nenhum filme, canção de amor ou livro me mostrou que também se pode amar alguém do mesmo sexo e que isso pode ser uma coisa bonita, e não um desvio ou uma doença;
Obriga-me o orgulho de um dia, depois de muitos anos, poder ir assumindo cada vez mais para mim própria que não há nada a esconder, mas tudo a mostrar para que outras e outros não tenham de sentir o que senti, e para que todos possam ser finalmente mais livres de expressarem de forma mais honesta tudo o que sentirem.
Quero a visibilidade para que finalmente todos possamos ser mais livres.
Porque quero a dignidade de ser tratada como igual – sem mais!
E para tal o primeiro passo é simplesmente dizer: existimos – vejam-nos!
A visibilidade lésbica é uma postura política, porque tudo o que é pessoal também é político
Por isso temos a necessidade de vir para a rua gritar!
E quero que muit@s mais venham comigo!
E faço aqui um apelo para que estejam connosco na Marcha do Orgulho dia 26 de Junho em Lisboa.”

Este ano o apelo é para dia 20 de junho no Príncipe Real em Lisboa :)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Manifesto da 16ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa


Contra a violência, quebra o silêncio!

Chega de silêncios. As pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans são alvo de várias violências. Recusamos o silenciamento da violência e a violência do silêncio. Marchamos, com um apoio cada vez mais alargado e com orgulho na luta que travamos, para denunciar bem alto todas as formas de violência e para as combatermos em conjunto.

Há cada vez mais registos de crimes de ódio cometidos contra nós, por causa da orientação sexual, identidade e expressão de género. Embora haja cada vez mais denúncias, há também ainda demasiados silêncios: às vezes calamo-nos por sentirmos que vivemos em isolamento ou por medo da discriminação. Outras vezes calam-nos. Aumentam também os registos de suícidios nas nossas comunidades, mas sabemos que também aqui os silêncios imperam. É preciso não só prevenir e combater, mas também apoiar as pessoas que sobrevivem e que continuam a lutar. 

O bullying homofóbico, lesbofóbico, bifóbico e transfóbico continua a ser uma realidade nas ruas, nas casas que deviam ser lares, nas escolas, nos locais de trabalho - e muitas vezes também é silenciado. Por isso é cada vez mais fundamental a educação sexual, a educação para a cidadania e a formação, muito para além das escolas, para denunciar e combater todas as formas de bullying.

A desinformação, o silêncio e a violência perpassam também no nosso direito à saúde. As pessoas trans continuam a não ter acesso a cuidados de saúde competentes e que respeitem a sua autonomia e identidade. Face à ausência de resposta atual no SNS  exigimos do Estado urgentes soluções alternativas, gratuitas e de qualidade para todas as pessoas trans que aguardam cirurgia. A doação de sangue continua a ser impedida em muitos casos para homens que têm sexo com homens, com critérios estigmatizantes, discriminatórios e errados. E as pessoas LGBT têm medo da discriminação e evitam muitas vezes recorrer a profissionais de saúde, perdendo, em silêncio, o acesso a um direito que tem que ser universal.

Aumentam, por seu lado, as novas infeções pelo VIH em jovens gays e mulheres trans. Cresce a violência a que estas pessoas são sujeitas, da discriminação no acesso aos cuidados de saúde à violência do estigma que encontram nas suas vivências e relacionamentos dentro das comunidades LGBT e da sociedade em geral. É fundamental trabalharmos em conjunto na prevenção, mas também na luta contra todas estas formas de discriminação. 

E os silêncios ainda são a regra no trabalho, reforçados pelo medo acrescido que a austeridade veio impor. Viver em silêncio também é uma violência quotidiana para muitas pessoas LGBT. Temos que quebrar todos estes silêncios e garantir que todas as pessoas têm o direito de afirmar a sua identidade sem hesitações.

Também por isso, não aceitamos o silenciamento da autonomia das pessoas trans. Temos que garantir a despatologização das identidades trans para garantirmos o direito de todas as pessoas a viverem livremente a sua identidade. Temos de incluir a identidade e a expressão de género no artº 13º da CRP.

Por sua vez, o silêncio sobre as pessoas intersexo tem também que acabar. Porque a vontade de silenciar pessoas intersexo significa ainda violentas mutilações à nascença, que são violações gritantes de Direitos Humanos. 

E não aceitamos que tentem silenciar as nossas famílias, que são diversas e múltiplas. Em questões de parentalidade, denunciamos e condenamos a violência simbólica de leis que nos dizem que não devemos ser o que já somos: mães ou pais. E enfatizamos a vergonha de uma lei também sexista que veda o acesso à procriação medicamente assistida a mulheres solteiras e casais de mulheres e que é uma violência sobre a autonomia das mesmas. 

Somos pessoas com uma enorme diversidade: pessoas de várias origens étnicas, imigrantes, requerentes de asilo, pessoas trans, pessoas com deficiências, pessoas de várias religiões, pessoas que têm diferentes modelos relacionais, pessoas idosas e jovens, assexuais, bissexuais, mulheres lésbicas, pessoas que estão em relações não-monogâmicas consensuais, mas sempre pessoas com Direitos inalienáveis. Como inalienável tem de ser o direito a que todas as pessoas possam ser reconhecidas na interseção entre as suas várias identidades, e protegidas da violência, física ou psicológica, venha ela de onde vier.

Temos, em conjunto, que garantir condições para quebrar o silêncio, para denunciar e combater todas as violências.

Em comum recusamos todas as formas de discriminação e violência - queremos acabar com o silêncio.

Contra a violência, ergue a tua voz!
Quebra o silêncio, junta-te a nós!

A Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa